Obra prima que, por razões desconhecidas, ninguém se lembrou de mencionar para os melhores discos da primeira década deste século (estou a lembrar-me de uma seriação assim feita pelo ípsilon).
qual é para ti um dos rappers mais subvalorizados e esquecidos na espuma do tempo, o que respondes? Eu, que só agora* descobri o álbum East Side Story (1992), diria sem hesitar: Kid Frost. Como é que este tipo anda esquecido? Como é que ninguém fala deste álbum? Mistério! Musicalmente, é do hip-hop mais melodioso que há, naturalmente a fazer jus ao padrão estético da época (a golden age dos 90) que o hip-hop norte-americano atravessava. Mas aos samples de soul, Kid Frost junta ainda ressonâncias caribenhas (embora o seu México seja um pouco mais acima), beats muitíssimos ritmados (e heterogéneos) e coros vocais enlaçados com saxofones sugerindo um ginger ale em mangas de camisa numa praia para aqueles lados. Na faixa 8, "Spaced Out", ensaia um dubstep arrojado e obscuro (e completamente deslocado do disco, o que estranhamente não fica nada mal) e, coisa rara num rapper, deixa o beat tocar sozinho por mais de 3 minutos na última faixa, "Mi Vida Loca" (que podem checkar abaixo), fechando assim em beleza. Se liricamente não é nenhum portento, Kid Frost compensa com bom-disposição e com aquele "street knowledge" calmeirão, conselheiro. Numa palavra: pau-sa-do. Como se a coisa já não fosse suficientemente boa, o puto Frost ainda teve tempo para fazer por essa altura uns clips muuuuito oldschool:
La Raza
No Sunshine (sample do clássico de Bill Whiters)
Mi Vida Loca
*depois do boy que mais comenta neste blog me ter mostrado o clip da "La Raza". :)
João Bonifácio (JB), crítico de música (entre outras coisas), assina no último ípsilon (suplemento do Público), um artigo a propósito do álbum In search of Stoney Jackson (2010), dos Strong Arm Steady, em que os elogios são tantos e tão profundos, que o leva mesmo a dizer, com honras de sub-título (na versão impressa), que estamos perante "o melhor disco de hip-hop, jazz e funk que se ouviu em muito tempo". Assalta-me logo uma dúvida: o que significa, ao certo, "em muito tempo"? Um ano, dois? Uma década? Bem, em qualquer das duas, o juízo parecer-me-ia infundado - basta pensar no álbum Early Believers (2009), de Kero One (álbum de que estranhamente ninguém falou para os melhores discos de 2009). Por outras palavras: parece-me a mim que neste artigo, o crítico padece do vício tão natural dos críticos que mais estão por dentro da "cena": o "deixar-se ir", a apreciação exacerbada própria de quem está em contacto muito directo com o autor da obra e que, por isso mesmo, acaba por se lhe toldar um pouco a razão. Compreendo o excesso (sem ironias!); mas para quem lê e depois ouve, é inevitável percepcionar uma certa alienação de quem avalia. Mas é In Search of Stoney Jackson um mau disco? Não, claro que não. É um bom disco, até porque a produção esteve nas mãos de Madlib e isso significa inexoravelmente boa música. O que acontece é que In Search of Stoney Jackson não é o disco que JB descreve nem de perto nem de longe (cheguei mesmo a pensar na possibilidade de ter ouvido uma mixtape do mesmo grupo, mas com o nome trocado). Que os beats são muito bons, ninguém discute (volto a lembrar o factor-Madlib); mas o que também ninguém poderá conscientemente afirmar é que sejam alguma coisa de extraordinariamente fresco, original. São os samples da velha escola, o mesmo é dizer, soul e funk norte-americanos dos anos 60 e 70. Claro que um "clássico" (JB não hesita em assim apelidá-lo!) também se faz (talvez na maioria das vezes, até), não de coisas "frescas" e "originais", mas de produtos consolidados e sabiamente explorados.
... (escrevo e reescrevo mil vezes um parágrafo) Stop: talvez esteja a ser injusto. Façam por vós próprios: antes de ouvirem o disco (ou as faixas abaixo), leiam o artigo, absorvam-no e pensem em que tipo de disco estão à espera. E depois, finalmente, oiçam-no. E dêem-me o vosso feedback. :)
O artigo (penso que é a versão completa) pode ser lido aqui.
Lançado em 2002 pela histórica editora Blue Note Records (que juntou gente como Coltrane, Horace Silver ou Donald Byrd, só para citar alguns), Shades of Blue é uma remistura de grandes registos da história do jazz americano. A receita não é, de todo, nova: construção e desconstrução de beats, lado a lado com os pianos, os saxofones ou os trompetes. Todavia, se não é nova, não deixa de ser de difícil execução. E, não sendo nova, é também sempre difícil repetir a execução com qualidade e originalidade, evitando ementas e ingredientes exaustivamente cozinhados. Obviamente que isso só está ao alcance dos melhores e Madlib, depois da partida de J Dilla, ficou provavelmente sozinho sentado no trono dos produtores da cena hip-hop norte-americana.
"Slim's Return" (original de Gene Harris & The Three Sounds)
"HHSE - O teu discurso como rapper é um pouco fora do vulgar. Que tipo de mensagem pretendes transmitir? STRAY - Nenhuma mensagem específica. Há rappers que o fazem muito bem, que transmitem muito bem os seus pontos de vista e que fazem pensar as comunidades. Eu não tenho pontos de vista muito importantes para transmitir a ninguém e também não quero ter a responsabilidade de responder na vida real pelas ideias que transmito na música. Prefiro que não me levem muito a sério e só quero ser julgado pela minha capacidade criativa. Não quero com isto dizer que não sou uma pessoa de convicções, mas no rap não tenho nenhuma mensagem a transmitir... ou melhor, não tenho nenhum objectivo a atingir perante os outros. Claro que há músicas minhas que têm uma mensagem...nem que seja uma mensagem emocional. Talvez se possa dizer isso. Por exemplo, as músicas "Dread Droid Ninja" parte I e II contam uma história de uma luta minha contra uma televisão que ganha vida por ter sido deixada ligada à corrente...e só se percebe essa mensagem, digamos, ambiental, no final da história e tudo foi uma grande odisseia exagerada para transmitir uma ideia simples, "meninos, antes de irem dormir, desliguem a televisão". Mas até que ponto é que essa mensagem não é irónica e o verdadeiro foco da história é mesmo a batalha e a razão da existência dessas músicas é uma tentativa de ser criativo? Sinceramente, não sei. Por isso também não posso arriscar dizer que a minha música tem mesmo uma mensagem".
Neste blog falava-se da norte-americana Jean Grae e de outras mulheres a fazerem hip-hop. Um homem, que faz hip-hop, que gosta de hip-hop feito por mulheres, diz: "I would walk my daughter 50 miles away from this place [meio hip-hop]". Porquê? A (velha) razão:
O original que aqui fica não é, na verdade, o original, pois esse, o de Curtis Mayfield, não existe no youtube. Mas fica o remake feito para banda sonora do filme Claudine, de 1974.
a rota da noite, para quem gosta de hip-hop, é muito simples: DEALEMA no Porto Rio e depois DJ Ride no Plano B (sendo que este último atrairá com certeza muito público além-hip-hop). Vemo-nos por lá!
Uma das mais belas odes ao Hip-Hop (musical e filmicamente). Doce, doce, doce...
[Norah Jones:] Life's filled with graaaay... But now, it comes clean... Leaves fall, awaaaaaay... Hip-hop is playing again And it's bangin, toooo... Know it's bangin, for you... Don't stop this feeling I feel... I just wanna lay around all day And feel the breeze upon my knees I'm so INTO your rich history... Tell me a story to taaaake me away... Come and take meeeeee, ooooooh... Come and take meeeeee with yooooou...
[Chorus x4: Norah Jones] Life is, better Now that, now that I found you Life is, better Now that, now that I found you
Anda nas bocas do mundo (leia-se do meio blogosférico) e não é a despropósito. How I Got Over é o novíssimo álbum dos The Roots com data de lançamento para este mês. Depois de Rising Down (2008) - disco que pessoalmente não me me agradou particularmente, como podem constatar aqui - o single "How I Got Over" promete o regresso a um registo mais próximo de álbums memoráveis como Organix (o primeiro da banda, em 1993) ou Do You Want More?!!!??! (1994). Com este seu nono (!) álbum, os The Roots consolidam-se como uma das bandas mais prolíficas de sempre na história do hip-hop. Aliás, mesmo comparativamente com MC's a solo, não são muitos aqueles com nove discos no cartão de visita - muito menos nove discos com a qualidade dos deste pessoal de Philadelphia. Pois bem... venham mais e mais! :)
P.S.: Alguém sabia que o Black Thought (também) cantava? E que bem que ele canta...
A primeira vez que ouvi esta letra foi sob a forma de spoken word, num dos clips gravados no festival Silêncio!, em Lisboa. Fiquei estonteado... Há tempos, descobri-a no myspace do Sam. Aqui fica.
Como uma música nos pode dizer tanto...
Eu já não penso tanto, fica nesse canto enquanto eu bazo a procurar um vaso em que eu plante um amor distinto com afecto mesmo estando distante, ela diz que ama ao longe, de perto não me diz tanto
(...)
Quem é que nos induz a querer saber quem usa quem desde que eu compus a "Musa" não há ninguém que seduza bem tou a dar pala, agora a gente quando se cruza nem se fala nem se fila nem se rala nem se tem um clima calmo, um clima sem novela, foi o que eu senti nela uma indiferença falsa que era sentinela
Podia ser actriz, como a Beatriz porque ela afasta o meu dedal mas chega ao final e diz "Não me deixes!" Amor, não te queixes, "Amor, não me beijes!" mas amor, não te vejo...
(...)
nota: A métrica original não é provavelmente esta, nem fui eu que a modelei ao transcrevê-la para aqui (salvo algumas transformações, como acrescentar aspas e uma ou duas vírgulas). Foi simplesmente a que consegui encontrar neste sítio. Isto para dizer que a métrica aqui presente, além de não corresponder à música cantada, não é esteticamente a melhor. Longe disso.
e para fechar as férias de verão na rua. Não é a "Hot Thing" do Talib Kweli, mas é algo ainda mais quente. E mais antigo. Deixo aqui uma pedrada de funk, hip-hop e pura dance music do final de 80's. A todo o disc jockey que o passe numa festa, o meu agradecimento!
E agora é tempo de voltar!
1. "Rollin' with Kid 'n Play" - 4:01 2. "Brother Man Get Hip" - 3:43 3. "Gittin' Funky" - 4:41 4. "Soul Man" - 3:31 5. "Damn That DJ (The Wizard M.E.)" - 3:28 6. "Last Night" - 4:23 7. "2 Hype" - 3:57 8. "Can You Dig That" - 3:27 9. "Undercover" (feat. The Real Roxanne) - 3:38 10. "Do the Kid 'N Play Kick Step" - 4:02 11. "Do This My Way" - 4:46
do Enter the Wu-Tang (36 Chambers) dos Wu-Tang (o meu caso, é verdade!), mas aprecia a sonoridade do albúm em geral, nada melhor que o disco Enter the 37th Chamber (2009), da autoria da banda El Michels Affair. Jazz, soul, funk e muita melancolia numa cover em registo orgânico e puramente instrumental desse mítico albúm dos W. Beautiful!
Os brasileiros Stereo Maracanã estiveram há dias na FNAC do Gaiashopping. Apesar de não ter ido ver, fiquei curioso com a descrição da banda (presente na Agenda da FNAC):
"Stereo Maracanã é considerada uma banda prodígio no cenário carioca. Ao longos do anos a banda tem-se destacado em várias colectâneas musicais. O som do grupo tem influências da música de capoeira e da black music, caracterizando-se pela experimentação musical em estúdio onde misturam bases electrónicas com beats de hip-hop e muita eprcussão. Actualmente a banda prepara a apresentação do novo albúm Mentalidade Safari e estará em tournéé na Europa em Julho".