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sábado, 2 de janeiro de 2010

poesia e canções

Este é um dualismo tranversal a toda a música que sempre me despertou muita curiosidade e que, creio, me vai suscitar sempre interrogações. Sobre o papel da poesia no que ao hip-hop diz respeito (uma velha questão, e que por isso mesmo despoletou comentários difusos), já por aqui escrevi. aliás, um texto. Aqui fica um excerto da entrevista com Manel Cruz (ex-Ornatos Violeta, Pluto, Supernada) ao Jornal Tribuna a propósito da questão. Para ler a entrevista completa (páginas 42 e 43), podem fazer o download do Tribuna em formato pdf aqui.

"Tribuna: Se a tua musicalidade se foi alterando ao longo dos teus projectos e das tuas diferentes bandas, liricamente há uma marca muito forte que não sofreu grandes alterações. Concordas com isto? Numa entrevista há tempos disseste que mudaste aquilo sobre que escrevias.

Manel Cruz: A parte do escrever acompanha-me sempre, é transversal. É uma parte mais existencial, contemplativa. Há mudanças que noto mais eu do que as outras pessoas e que nã se prendem apenas com aquilo sobre que escrevo, mas também com a forma, a plástica da letra, a maneira como parto para ela. Nos Ornatos, fazia melodias e depois escrevia, ajustando a melodia às letras e vice-versa. Era um processo que servia mesmo uma banda. Fazer as coisas de outra maneira pode ser, por exemplo, partires de uma letra e musicá-la, como pode ser, também, escrever alguma coisa que te vai na cabeça no momento, sem sentido aparente, e depois descobrires o sentido daquilo, ou então não, e deixares aquilo ser uma mera brincadeiras com palavras. É um lado mais experimental. Não digo que tenha perdido este lado. Gosto de escrever uma "canção" no sentido mais clássico do termo, mas sinto que também comecei a brincar um bocadinho mais e a não levar tanto a sério a questão da escrita. Brincar mais com as palavras.

TRIBUNA: Canções e poemas são diferentes? Ou é possível ler verdadeira poesia nas letras? É que isso acontece nas tuas...

Manel Cruz
: Essa é uma questão fixe. Há um equívoco. Eu acho que os poemas já têm a música. A maneira como se organiza o poema na página, como preteres algumas palavras, uma pausa, um ponto, a métrica... tudo isso é já uma pauta para quem está a ler. Já estás a condicionar quem vai tocar. Quem toca dá ao poema a música que ele já sugere. Na canção, sem o suporte musical, a letra não tem estrutura para ser poema. Mas atenção, não estou a dizer que estas são as únicas hipóteses! Podes ter, de facto, canções que são poemas, e lê-los isoladamente e funcionar. O que digo é que se arrancarmos a letra à canção, isso não faz da letra necessariamente um poema. Para mim, um poema, ou o que se chama de poema, é algo que vive sozinho, para ser lido. Tive muitas propostas de editoras para editar as minhas letras como livros de poemas. Mas sempre que as isolava achava aquilo patético, não fazia sentido. Repetir os refrões, por exemplo, não fazia sentido. Quando se está a ouvir um CD e se está a ler as letras, estamos a ouvir música.
Há múltiplas maneiras de encarar as coisas. Normalmente, tenho um sentido que quero dar nas letras. Já me aconteceu querer dar esse sentido e certa palavra ser perfeita para colmatar um texto mas foneticamente não soar bem na música. Prefiro tirar sempre a palavra e deixar a música. A maneira como a música vai ser ouvida também conta para transmitires um sentimento. Uma palavra perfeita que soa mal pode não passar o sentimento, embora passe a palavra. É um jogo abstracto em que a preocupação no final é o que entra no ouvido. Depois do ouvido é que vai, então, à alma. Pelo menos eu sinto a coisa assim... Já se for um poema propriamente dito, aí é a palavra. A pessoa vai ler a palavra e depois "cantá-la" da maneira que quiser".

sábado, 3 de outubro de 2009

Tão longe, tão perto

A primeira vez que ouvi esta letra foi sob a forma de spoken word, num dos clips gravados no festival Silêncio!, em Lisboa. Fiquei estonteado...
Há tempos, descobri-a no myspace do Sam. Aqui fica.



Como uma música nos pode dizer tanto...

Eu já não penso tanto, fica nesse canto
enquanto eu bazo a procurar um vaso em que eu plante
um amor distinto com afecto mesmo estando distante,
ela diz que ama ao longe, de perto não me diz tanto

(...)

Quem é que nos induz a querer saber quem usa quem
desde que eu compus a "Musa" não há ninguém que seduza bem
tou a dar pala, agora a gente quando se cruza nem
se fala nem se fila nem se rala nem se tem
um clima calmo, um clima sem
novela, foi o que eu senti nela
uma indiferença falsa que era sentinela

Podia ser actriz, como a Beatriz
porque ela afasta o meu dedal mas chega ao final e diz
"Não me deixes!"
Amor, não te queixes,
"Amor, não me beijes!"
mas amor, não te vejo...

(...)

nota: A métrica original não é provavelmente esta, nem fui eu que a modelei ao transcrevê-la para aqui (salvo algumas transformações, como acrescentar aspas e uma ou duas vírgulas). Foi simplesmente a que consegui encontrar neste sítio. Isto para dizer que a métrica aqui presente, além de não corresponder à música cantada, não é esteticamente a melhor. Longe disso.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Festival do Silêncio



De 18 a 27 de Junho, Lisboa será palco de um evento em torno da palavra dita: o Festival Silêncio! Trata-se de um evento internacional dedicado às novas tendências artísticas e novas expressões urbanas que cruzam a música com a palavra: dos concertos à poetry slam, dos debates às conferências, dos audiolivros às leituras encenadas e aos espectáculos transversais e de spoken word.

Rodrigo Leão, José Luís Peixoto, Olivier Rolin, Adolfo Luxúria Canibal, Rogério Samora, JP Simões, Francisco José Viegas, Sam the Kid, Jorge Silva Melo, DJ Ride, Filipe Vargas, John Banzai, Mark-Uwe Kling, Maria João Seixas, Alex Beaupain e Wordsong, entre muitos outros, para que Lisboa dê lugar à palavra, aceitando o silêncio quando ele se impõe.

Promover encontros entre poesia, música e vídeo, reunindo alguns dos mais conceituados artistas portugueses, franceses e alemães. Debater o futuro de novos suportes como o audiolivro convocando escritores, jornalistas e editores. Dar a conhecer as mais recentes tendências artísticas nesta área é o objectivo do Festival Silêncio!

Queremos que a palavra passe e puxe a palavra!



E ainda:

Absolut Poetry : Concurso / Torneio de Poetry Slam
Musicbox, 26 Junho 22h30

Considerado uma das mais recentes e cosmopolitas tendências da noite das grandes capitais, o Poetry Slam tem alcançado enorme sucesso nos bares de Berlim, Nova Iorque, Paris ou Londres. O conceito é simples: basta escolher um tema, tratá-lo de forma crítica e espirituosa, adicionar algumas rimas e declamá-lo de forma dramática no espaço de três minutos no palco de um clube. Emblema da cultura urbana, este novo movimento dá primazia à palavra e aos poetas e convoca todos aqueles que queiram exprimir e transmitir a sua arte através da palavra dita.

Inscrições para o concurso de Poetry Slam adiadas até dia 19 de Junho

Devido à grande afluência de inscrições, a equipa do Festival Silêncio! decidiu prorrogar as inscrições do 1º concurso de Poetry Slam em Portugal até a próxima sexta-feira, dia 19 de Junho.

Inscrição para a pré-selecção através do formulário abaixo– envio até 19 de Junho (inclusive)
Júri composto por Ana Padrão, Fernando Alvim, José Luís Peixoto, Rui Zink, Vitor Belanciano e mais 1 convidado a confirmar.
Mestre de Cerimónias : J.P. Simões

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Onde anda?

Dizia o Chullage no seu último concerto no Porto que hoje se ouvem beats cada vez mais fortes e mais espectaculares, o que deixa cada vez menos espaço (em termos de tempo e também em termos de audibilidade) para se ouvir o mc. Acrescentou ele que isto não era inocente: "é porque hoje são cada vez menos os rappers com alguma coisa para dizer". Foi qualquer coisa como isto.

E é um facto.
Lançam-se hoje discos onde os beats são cada vez mais, como se diz na gíria, xpto. E, pior, na grande maioria dos casos, o xpto não é bom. É mau, foleiro.
Eu não sou nenhum purista, se for essa a acusação. Longe disso! E tenho raiva a quem é! Para ser franco, nem sei muito o que isso é... Aprecio muitíssimos novos rappers e produtores. Tanto perco a cabeça com uma cena de um Premier ou de um Pete Rock como de um Alchemist, de um Vadim ou de um J-Live. E isto esqueçendo tantos e tantos outros como Madlib, J-Dilla, Tonk, 9th Wonder e por aí fora...
Agora que é indesmentível que o espaço para o mc começa a ficar atrofiado, isso é. Se por culpa dos produtores pelos beats demasiado cheios que fazem ou dos rappers por terem pouco para dizer (ou se têm, por ser vulgar e liricamente pouco criativo), isso não sei ao certo.
O que eu sei é que o Premier fazia beats largos, abertos, escancarados, para o Guru (no caso dos Gangstarr) ou qualquer um rimar à vontade. O que eu sei é que os A Tribe Called Quest só precisavam de um simples boom-bap funky para fazer autêntica poesia:

The beat is over and so is the night
The sun is risen and the shine is bright
We all say peace and go our separate ways
Youth is fading as we gain our days
Expedition for the song is simp'
The hours creep, excuse me, I mean limp
As we go you hear a gasp of laugh
As we start up our rhythmic path


"After Hours", A Tribe Called Quest

Onde anda a poesia no rap?

A poesia, sim. E não meia dúzia de palavras, mormente de frontin', atabalhoadamente encaixadas nuns desgostosos versos.