Já por aqui a agulha caiu em belos discos de rap espanhol: na altura ouviu-se três grandes registos de Frank T. Na altura apontei outros bons nomes da cena espanhola, casos de Mucho Muchacho, El Payo Malo ou os Violadores del Verso. Estes últimos, aka Double V, sem dúvida o nome mais sonante. Ora há uns dias, uma amiga minha galega deu-me a conhecer uma prestigiada rapera. Chama-se Mala Rodríguez (que confuso que isto soa) e é dona de um rap assanhado q.b. Pessoalmente, desde que oiço hip hop nuestro hermano, sempre gostei muito da sonoridade dos versos na língua espanhola. Mas conheço quem não goste nada... A verdade é que gostar de rap espanhol passa muito por aí, pelo gosto de ouvir o trauteado animado dos espanhóis. Eu sempre gostei muito da língua em si, pelo que também se deve a isso o meu apreço... Bem, voltando à Mala, fui procurar o seu primeiro disco: Lujo Ibérico (2000). É um disco de hip hop puro e duro: beats fortíssimos (o boom bap cru) com samples da nova (boa) escola (muita electrónica, fundamentalmente). A particularidade em Mala é que além de rappar com classe, também canta muito bem. O que não se vê em todos os rappers. Liricamente, Mala oscila entre o discurso descomprometido e o de intervenção social. Isto num palavreado de uma mulher que controla... muito patroa, portanto. De Lujo Ibérico, escolho Tengo un trato, En mi ciudad hace caló (com Kaseo), Yo marco el minuto, El Gallo e A Jierro como as minhas preferidas.
Hombre mudo antes que ciego ya se que pedir socorro no vale pa na'. Pedir barril, haz el favor, pide uno lleno. Lo mejor significa, barre tu terreno y si hay que soñar, pues sueño son misiones en el suelo, asi piso el suelo, asi me quito el velo, a ti lo que yo mas quiero
The Essence Of Charlie Parker (2006) é uma colecção de 50 êxitos do Bird do jazz americano. Nome intemporal no Jazz, Parker, saxofonista, embora de vivência curta, deixou um legado incomensurável, do qual um dos melhores exemplos a dar é que foi o homem que, juntamente com o trompetista Dizzy Gillespie (outro senhor incontornável) e outros, criou o chamado bebop, uma forma harmónica de juntar ritmo e melodia na composição e no improviso. Foi o recuerdo de Barcelona para o meu estimado pai. Não que ele não mereça sacríficios mais dispendiosos, mas a verdade é que esta caixinha de pandora musical me custou uns módicos... 7 euros (!).
O clip que aqui fica não é de grande qualidade visual, mas o som, que para aqui é o que verdadeiramente interessa, está impecável. A composição chama-se Dexterity e, ou me engano redondamente, ou o dinossauro John Coltrane tem uma música com o mesmo nome.
Regressado de Espanha, mais concretamente de Barcelona, trouxe na mala alguns cds interessantes. Algumas coisas que conhecia, outras nem tanto. Fundamentalmente trouxe rap e jazz. O primeiro espanhol, o segundo americano (grandes pechinchas!). Curiosamente, a habitación em que fiquei era partilhada por um galego (saludos, Xosé!) residente em barcelona que era fotógrafo profissional e que, entre outros trabalhos, já tinha fotografado tours e concertos de alguns rappers espanhóis. Quem aprecia Dealema, o colectivo de Nova Gaia, certamente já terá ouvido tapes do grupo com El Puto Coke. Pois é, o meu anfitreão era compincha desse mesmo rapper. Para quem desconhece o panorama do hip hop espanhol, há que lançar um primeiro aviso: tem coisas muuuito boas! É o caso de La Excepción, Porta, Mucho Muchacho (catalão), El Payo Malo e, porventura os dois mais emblemáticos, o grupo Violadores del Verso (aka Double V) e o rapper Frank T. Escolhi primeiramente Frank T porque trouxe comigo o triplo cd intitulado Frank T - Discografía básica que inclui os seus três primeiros discos de originais: Los pájaros no pueden vivir en el agua porque no son peces (1998) (que metáfora infinita, esta), Frankattack (1999) e 90 Kilos (2001). Tudo por... 13 euros! Eheh... o El Corte Inglés tem destas coisas! São três disco fantásticos que foram a minha banda sonora nos dias que lá tive enquanto fazia a lida da casa. Frank T consegue fazer 3 discos no período de 4 anos com uma qualidade e, friso esta, regularidade, espantosa. Não é coisa fácil! Pensem só no primeiro album de Boss AC (formidável!) e depois pensem nos seguintes. Foi uma "descida pela ribanceira abaixo", como se diz na minha terra... Frank T consegue essa regularidade com uma ementa muito simples e, ao mesmo tempo, difícil: grandes beats e grandes letras. Como parece fácil! São beats muito underground, com batidas poderosas e assertivas. A melodia, especialmente em Los pájaros no pueden vivir en el agua porque no son peces (1998), é escura, grave. A partir deste disco, nota-se uma evolução quer na secção rítima, quer na sonoridade. Na primeira, o beat torna-se multifacetado, alternando as batidas vigorosas com percussões mais ecléticas e mexidas. Menos monótonas, também. Quanto à atmosfera melódica, crescem os samples multifacetados, entre a salsa, o jazz, hip hop, o rnb, trip hop e até o chill out. Também as participações vocais consubstanciam essa evolução musical - são muitos os convidados com contributos esteticamente diversos. 90 Kilos (2001) condensa toda essa caminhada musical. E o liricismo? Bem, ao ouvirmos Frank T, percebemos que não estamos a ouvir um qualquer jovem que se lembrou de pegar no mic. Não sei ao certo quantos anos terá Frank T e, embora não querendo fazer da idade um atestado de coisa alguma, a verdade é que as suas letras, além da forte consciência ética, cívica, política e social, emanam uma supreendente maturidade e serenidade. Assim de repente, só me lembro de Guru (com os Gangstarr ou a solo) como exemplo do que tento transmitir de Frank T. É um discurso lírico menos próximo do ouvinte, como que (muito) mais pessoal e resguardado. E sapiente. Infelizmente, os clips de Frank T deste período são pouquíssimos - dois, para ser mais preciso. Por isso mesmo, preferi trazer aqui um (excelente) clip de uma excelente música do seu último cd: Sonrían por favor (2006). Chama-se Optimista y Soñador, da qual aliás já tinha mostrado o meu apreço noutras paragens.