Agora que estou de partida para outras terras, lembrei-me de abrir aqui o mapa de uma das aventuras mais melodiosas da música portuguesa nos últimos 20 anos. Viagens (1994) é um disco cheio de estilo, glamour e boa vibe. Embora à época do seu lançamento eu fosse ainda uma criança, creio ter sido um pequeno terramoto na música portuguesa. E note-se que era o primeiro disco de Pedro Abrunhosa... Viagens é, para mim, um disco fantástico. Pelo sonoridade (preste-se a devida homenagem aos Bandemónio), pela irreverência e pela poesia de Abrunhosa. Quanto a esta última, acho que é capaz de gerar amores e ódios. Eu pessoalmente aprecio muito. Abrunhosa é inovador e diversificado também no canto, na medida em que fala, rappa, canta, declama,... Abrunhosa, mais do que o tipo dos óculos escuros, é um músico complexo, capaz do melhor e do pior. Ora este Viagens faz parte indubitavelmente desse melhor... Muito mais gostaria de dizer sobre Abrunhosa e sobre este disco, mas neste momento resta-me pouco tempo para descansar e partir. Oportunidades não faltarão! Quanto à rua, ela estará por estes dias envolvida por uma acalmia ensolarada, afastados que estão, ao que parece, os dilúvios. Apenas no chilling do dia-a-dia poderei ir fazendo umas actualizações. Quem sabe com umas descobertas musicais empoeiradas por terras sicilianas. :) Peace!
Sexual Healing recorded live in Indianapolis (1996) inclui alguns dos maiores êxitos do quase-homem, quase-mito Marvin Gaye: I heard it through the grapevine, Let's get it on, Inner City Blues, What's going on? ou Ain't nothing like the real thing. Tudo isto acompanhado por um coro devoto e absolutamente histérico. 2+2= 4 euros... :)
Marvin Gaye - Let's get in on live in Montreux 1980
The Essence Of Charlie Parker (2006) é uma colecção de 50 êxitos do Bird do jazz americano. Nome intemporal no Jazz, Parker, saxofonista, embora de vivência curta, deixou um legado incomensurável, do qual um dos melhores exemplos a dar é que foi o homem que, juntamente com o trompetista Dizzy Gillespie (outro senhor incontornável) e outros, criou o chamado bebop, uma forma harmónica de juntar ritmo e melodia na composição e no improviso. Foi o recuerdo de Barcelona para o meu estimado pai. Não que ele não mereça sacríficios mais dispendiosos, mas a verdade é que esta caixinha de pandora musical me custou uns módicos... 7 euros (!).
O clip que aqui fica não é de grande qualidade visual, mas o som, que para aqui é o que verdadeiramente interessa, está impecável. A composição chama-se Dexterity e, ou me engano redondamente, ou o dinossauro John Coltrane tem uma música com o mesmo nome.
Regressado de Espanha, mais concretamente de Barcelona, trouxe na mala alguns cds interessantes. Algumas coisas que conhecia, outras nem tanto. Fundamentalmente trouxe rap e jazz. O primeiro espanhol, o segundo americano (grandes pechinchas!). Curiosamente, a habitación em que fiquei era partilhada por um galego (saludos, Xosé!) residente em barcelona que era fotógrafo profissional e que, entre outros trabalhos, já tinha fotografado tours e concertos de alguns rappers espanhóis. Quem aprecia Dealema, o colectivo de Nova Gaia, certamente já terá ouvido tapes do grupo com El Puto Coke. Pois é, o meu anfitreão era compincha desse mesmo rapper. Para quem desconhece o panorama do hip hop espanhol, há que lançar um primeiro aviso: tem coisas muuuito boas! É o caso de La Excepción, Porta, Mucho Muchacho (catalão), El Payo Malo e, porventura os dois mais emblemáticos, o grupo Violadores del Verso (aka Double V) e o rapper Frank T. Escolhi primeiramente Frank T porque trouxe comigo o triplo cd intitulado Frank T - Discografía básica que inclui os seus três primeiros discos de originais: Los pájaros no pueden vivir en el agua porque no son peces (1998) (que metáfora infinita, esta), Frankattack (1999) e 90 Kilos (2001). Tudo por... 13 euros! Eheh... o El Corte Inglés tem destas coisas! São três disco fantásticos que foram a minha banda sonora nos dias que lá tive enquanto fazia a lida da casa. Frank T consegue fazer 3 discos no período de 4 anos com uma qualidade e, friso esta, regularidade, espantosa. Não é coisa fácil! Pensem só no primeiro album de Boss AC (formidável!) e depois pensem nos seguintes. Foi uma "descida pela ribanceira abaixo", como se diz na minha terra... Frank T consegue essa regularidade com uma ementa muito simples e, ao mesmo tempo, difícil: grandes beats e grandes letras. Como parece fácil! São beats muito underground, com batidas poderosas e assertivas. A melodia, especialmente em Los pájaros no pueden vivir en el agua porque no son peces (1998), é escura, grave. A partir deste disco, nota-se uma evolução quer na secção rítima, quer na sonoridade. Na primeira, o beat torna-se multifacetado, alternando as batidas vigorosas com percussões mais ecléticas e mexidas. Menos monótonas, também. Quanto à atmosfera melódica, crescem os samples multifacetados, entre a salsa, o jazz, hip hop, o rnb, trip hop e até o chill out. Também as participações vocais consubstanciam essa evolução musical - são muitos os convidados com contributos esteticamente diversos. 90 Kilos (2001) condensa toda essa caminhada musical. E o liricismo? Bem, ao ouvirmos Frank T, percebemos que não estamos a ouvir um qualquer jovem que se lembrou de pegar no mic. Não sei ao certo quantos anos terá Frank T e, embora não querendo fazer da idade um atestado de coisa alguma, a verdade é que as suas letras, além da forte consciência ética, cívica, política e social, emanam uma supreendente maturidade e serenidade. Assim de repente, só me lembro de Guru (com os Gangstarr ou a solo) como exemplo do que tento transmitir de Frank T. É um discurso lírico menos próximo do ouvinte, como que (muito) mais pessoal e resguardado. E sapiente. Infelizmente, os clips de Frank T deste período são pouquíssimos - dois, para ser mais preciso. Por isso mesmo, preferi trazer aqui um (excelente) clip de uma excelente música do seu último cd: Sonrían por favor (2006). Chama-se Optimista y Soñador, da qual aliás já tinha mostrado o meu apreço noutras paragens.