
Que DJ Ride é já um astro na música portuguesa da actualidade - mesmo que passe ao lado de muita gente cuja bagagem exigiria outro tipo de atenção e consideração - não é novidade. Que DJ Ride vai marcar a música portuguesa nos próximos 10 ou 20 anos - confiando que ainda não vai ser em 2012 o
the big end - idem. Mas o que é mesmo novidade, e é isso que pretendo trazer para aqui, é o que Ride trouxe aos pratos (ao turntablism, se preferirem), às mesas de mistura, às mpcs (aos beats e aos samples, portanto), aos sintetizadores, aos pianos, aos saxofones, às guitarras eléctricas e, claro, a esse delicado e refinado dedilhado no vinyl - o
scratch.
Juntando tudo isto, Ride é muito mais do que um "disc jockey": Ride cria música em directo, enquanto actua em palco. Ora um dos mais preciosos instrumentos (Ride faz questão de lhe dar este epíteto) nesta criação
no momento é justamente o scratch, que lhe permite criar interlúdios, fazer transições, sugerir quebras mais ou menos abruptas, ou simplesmente “rasgar” em cima de uma melodia. E é aqui que quero chegar.
Ride, em entrevista no nº 2 da
Freestyle - revista portuguesa bimestral dedicada ao Hip-Hop - acusa os produtores e djs que hoje utilizam o scratch na composição, de o fazerem como se fazia há 10 anos atrás. Especialmente no Hip-Hop, diz Ride.
A afirmação - mais do que confirmar um espírito iluminado - tem toda a razão de ser. É realmente incrível como muitos produtores e dj's de Hip-Hop continuam a fazer scratch tal e qual se fazia na golden age dos 90's - o mesmo é dizer, tal e qual o scratch do Premier, do Pete Rock, do Large Professor, entre outros. Mas fundamentalmente do Premier. Qual é a fórmula, então? O clássico - assim cronologicamente: beat; refrão (normalmente um sample de soul ou meia dúzia de dicas de rappers oldschool) com scratch; beat; e scratch a terminar em cima do beat, pegando noutra meia dúzia de punchlines poderosas. E "tá feito"! Não que soe mal. Nada disso! Eu continuo a ouvir e a abanar a cabeça! Mas do que se trata aqui, e é nesse sentido que entendo e dou razão a Ride, é uma questão de inovação, de originalidade, frescura.
Ride, a par de outros produtores e dj’s em países diversos, levou o scratch muito mais longe. Fez dele, de facto, um
instrumento, instrumento esse que será uma marca, arrisco eu, de muita da música que ainda está para vir. Desde que utilizado, claro está, como Ride o faz: sem limites.
E é também por isso que Ride faz música muito para além do hip-hop: o hip-hop é só mais um dos felizes contemplados - juntamente com o funk, a electrónica, o rock e outros - nesta roda, não da sorte, mas do talento e do mérito.
Ride on!Sobre DJ Ride, ver, por exemplo, aqui.